Em 1948 as teorias do biologista russo Lisenko sobre a evolução e genética foram oficializadas pelo governo da extinta União Soviética. Quem discordasse delas arriscava o pescoço. Lisenko afirmava que características adquiridas podiam ser transmitidas por geração. Isto é: em vez da evolução por tentativa e erro da teoria de Darwin, do aperfeiçoamento da espécie através de mutações acidentais depois sacramentadas pela sobrevivência, Lisenko sugeria a possibilidade do aperfeiçoamento consciente da espécie. Contra a idéia resignada de que biologia é destino, contra o melhor senso de seus colegas, Lisenko insistia que a experiência não-biológica de uma geração podia ser transmitida biologicamente a outra.
O prestigio que Stálin dava as teses de Lisenko - depois desacreditada pela comunidade científica russa – foi explicado como mais um capricho do velho. Mas o seu intento político é óbvio. Lisenko dava o aval da ciência ao sonho marxista. Só uma transformação da natureza humana garantiria o triunfo sobre a cupidez, o egoísmo e a calhordice em geral que anunciava o advento do paraíso comunal, no fim da História. Lisenko absolvia Stálin.
No fim da carnificina pela qual procurara moldar a natureza humana ao sonho socialista, Stálin descobria em Lisenko a sua remissão. Se Lisenko estava certo, Stálin estava certo. Se Lisenko estava errado, então Marx estava errado. Não no diagnóstico, mas na cura.
Quando o PMDB (antes um Partido, depois uma sigla, hoje uma tese esquecida em algum arquivo de alguma sala sombria do Tribunal de Justiça Eleitoral) passou a integrar o governo de Blumenau, foi presenteado com um laboratório: a Fundação Cultural de Blumenau.
Não! O Ivo não foi Lisenko, tampouco Stálin. Não serviu aos propósitos; resolveu trabalhar. Precisavam de Lisenko com suas teses para, assim, absolverem-se - ao menos em Blumenau - da calhordice que estão fazendo com a Cultura no Estado. A única exigência que faziam era que o biologista nunca na vida tivesse visto um tubo de ensaio. Se confundisse um microscópio com uma máquina fotográfica melhor ainda.
A transitoriedade da Ação Cultural em Blumenau pressupunha a transitoriedade das deformações a serem corrigidas, mas a Cultura de um povo não pode ser tratada como objetivos transitórios.
Qualquer sociedade, em qualquer estágio imaginário da evolução, quer sua história, sua arte e seu destino sendo tratados com respeito. No mínimo com respeito. O argumento, os frágeis argumentos, de quem dirige o laboratório, não convenceriam nem uma sociedade feudal, quanto mais uma sociedade politizada e instruída como a de Blumenau.
Lisenko foi desmascarado pelos próprios russos depois que Stálin foi pagar seus pecados no andar de baixo, mas a decorrência lógica de seu descrédito era que o totalitarismo seria eterno, seja em Moscou, Sertãozinho ou em Blumenau. Já que a natureza humana não muda: mão de ferro.
Lisenko está aí. O laboratório está caindo; nosso biologista só não entende de biologia, mas pinta as unhas muito bem. Porém, ainda lhe restam duas opções: ler ou então continuar jogando truco.
Mário Olegário
Mário Olegário