quarta-feira, 16 de março de 2011

Lisenka

Em 1948 as teorias do biologista russo Lisenko sobre a evolução e genética foram oficializadas pelo governo da extinta União Soviética. Quem discordasse delas arriscava o pescoço. Lisenko afirmava que características adquiridas podiam ser transmitidas por geração. Isto é: em vez da evolução por tentativa e erro da teoria de Darwin, do aperfeiçoamento da espécie através de mutações acidentais depois sacramentadas pela sobrevivência, Lisenko sugeria a possibilidade do aperfeiçoamento consciente da espécie. Contra a idéia resignada de que biologia é destino, contra o melhor senso de seus colegas, Lisenko insistia que a experiência não-biológica de uma geração podia ser transmitida biologicamente a outra.

O prestigio que Stálin dava as teses de Lisenko - depois desacreditada pela comunidade científica russa – foi explicado como mais um capricho do velho. Mas o seu intento político é óbvio. Lisenko dava o aval da ciência ao sonho marxista. Só uma transformação da natureza humana garantiria o triunfo sobre a cupidez, o egoísmo e a calhordice em geral que anunciava o advento do paraíso comunal, no fim da História. Lisenko absolvia Stálin.

No fim da carnificina pela qual procurara moldar a natureza humana ao sonho socialista, Stálin descobria em Lisenko a sua remissão. Se Lisenko estava certo, Stálin estava certo. Se Lisenko estava errado, então Marx estava errado. Não no diagnóstico, mas na cura.

Quando o PMDB (antes um Partido, depois uma sigla, hoje uma tese esquecida em algum arquivo de alguma sala sombria do Tribunal de Justiça Eleitoral) passou a integrar o governo de Blumenau, foi presenteado com um laboratório: a Fundação Cultural de Blumenau.

Não! O Ivo não foi Lisenko, tampouco Stálin. Não serviu aos propósitos; resolveu trabalhar. Precisavam de Lisenko com suas teses para, assim, absolverem-se - ao menos em Blumenau - da calhordice que estão fazendo com a Cultura no Estado. A única exigência que faziam era que o biologista nunca na vida tivesse visto um tubo de ensaio. Se confundisse um microscópio com uma máquina fotográfica melhor ainda.  

A transitoriedade da Ação Cultural em Blumenau pressupunha a transitoriedade das deformações a serem corrigidas, mas a Cultura de um povo não pode ser tratada como objetivos transitórios.

Qualquer sociedade, em qualquer estágio imaginário da evolução, quer sua história, sua arte e seu destino sendo tratados com respeito. No mínimo com respeito. O argumento, os frágeis argumentos, de quem dirige o laboratório, não convenceriam nem uma sociedade feudal, quanto mais uma sociedade politizada e instruída como a de Blumenau.

Lisenko foi desmascarado pelos próprios russos depois que Stálin foi pagar seus pecados no andar de baixo, mas a decorrência lógica de seu descrédito era que o totalitarismo seria eterno, seja em Moscou, Sertãozinho ou em Blumenau. Já que a natureza humana não muda: mão de ferro.

Lisenko está aí. O laboratório está caindo; nosso biologista só não entende de biologia, mas pinta as unhas muito bem. Porém, ainda lhe restam duas opções: ler ou então continuar jogando truco. 

Mário Olegário

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

MANIFESTO DA RELIGIÃO HIPERCÍNICA

Burilado ao longo de anos de leituras variadas, conjecturas, exercícios filosóficos, momentos autofágicos e em dias nublados alguns chopps na Vila Germânica, temos, por fim, o manifesto da Religião Hipercínica. O grande compêndio dos poucos sobreviventes do livre-pensamento, o testamento raríssimo da inteligência plasmada.
MANIFESTO DA RELIGIÃO HIPERCÍNICA
Ao lançarmos o Movimento Religioso Hipercínico do Brasil para o mundo, estabelecemos aqui, solenemente – ou não – nosso Manifesto Hipercínico, nossa Carta de Princípios Hipercínicos e nossa lista de Enunciados ou Proposições Hipercínicas – esta última ainda aberta a contribuições.
Aqueles um pouco mais letrados irão reconhecer facilmente nos enunciados seguintes alguns empréstimos, referências, contribuições involuntárias (também conhecidas como plágio) e citações mais ou menos literais de Nietzsche, Heidegger, Descartes, Derrida, Shakespeare, Garfield e outros potenciais hipercínicos que estão sendo aqui – à maneira dos Mórmons – recuperados postumamente pelo e para o Movimento Hipercínico.
Os menos letrados não devem perder tempo lendo o que se segue. Podem continuar jogando truco.
CARTA DE PRINCÍPIOS HIPERCÍNICOS
Princípio 1º:
Nunca acredite em nada.
Princípio 2º:
Por coerência (se é que isso é importante para alguém além de um intelectual de esquerda) com o Princípio 1º, não leve a sério o Princípio 1º.
Princípio 3º:
Não há verdades, apenas perspectivas.
Princípio 4º:
Contradiga o Princípio 3º elaborando a sua própria lista de verdades indiscutíveis. Comece com algo como: “A burrice existe, e muitas vezes é letal”.
Princípio 5º:
Para qualquer afirmação, é mais importante que ela seja bela do que verdadeira.
Princípio 6º:
Só o que é belo é verdadeiro.
Princípio 7º:
Só para espezinhar o Princípio 6º, faça sua própria lista de horríveis verdades.
Princípio 8º:
Retorne ao Princípio 3º.
Princípio 9º:
Penso, logo penso que existo. Mas não tenho certeza.
Princípio 10º:
Não é importante ter certezas.
Princípio 11º:
Há dúvidas quanto à veracidade do Princípio 10º.
Princípio 12º:
Toda ação é inútil, mas é melhor que os outros não saibam disso.
Princípio 13º:
Em bom Português, ser ou não ser é uma mera questão de estar ou não estar.
Princípio 14º:
Nada garante que é melhor existir alguma coisa do que nada.
Princípio 15º:
Não temos garantias de que o Princípio 14º seja procedente.
Princípio 16º:
Todo conjunto coerente de idéias é uma prisão para o espírito livre.
Princípio 17º:
OVNIs e espíritos livres não existem.
Princípio 18º:
Quanto mais uma argumentação soa convincente, mais ela tem chances de estar errada.
Princípio 19º:
Nada mais perigoso do que alguém que acha que está certo.
Princípio 20º:
Por precaução, não esteja certo quanto ao Princípio 19º.
Princípio 21º:
A convicção sempre se baseia na falta de informação.
Princípio 22º:
Não temos informações suficientes para corroborar o Princípio 21º.
PROPOSIÇÕES HIPERCÍNICAS
  1. O Movimento Hipercínico acredita que a vida surgiu por mero acaso, e o Homem por mero azar.
  1. Para o hipercínico, a Eternidade já seria por si só um inferno.
  1. Ao contrário de seu ilustre precursor da Antiguidade, o cínico Diógenes, que com sua lanterna acesa procurava em plena luz do dia o Homem honesto, o hipercínico moderno prefere tatear às cegas no escuro em busca da mulher – que nem muito honesta precisa ser.
  1. O hipercínico veste a carapuça e admite que todos os homens são iguais. Mas justifica tal fraqueza dizendo que, já entre as mulheres, algumas são muito melhores que as outras.
  1. Para o hipercínico, não há como traçar uma linha divisória clara entre a auto-estima e a falta de autocrítica.
  1. Cultura inútil também é cultura.
  1. Toda cultura é inútil. Já pregos e martelos são muito úteis.
  1. Cultura é coisa para ignorante.
  1. Ao contrário do jovem e dinâmico executivo, que é cheio de planos e projetos, e movido a desafios, o hipercínico é inativo por natureza, e mantém a mente vazia enquanto percorre com o olhar perdido a imensidão do cosmos... Mas os resultados a longo prazo são os mesmos.
  1. Só existe sexo pago. O casamento é uma espécie de financiamento a longo prazo.
  1. Não existem restrições éticas ao sexo mutuamente consentido entre adultos; somente restrições estéticas.
  1. O abismo existencial entre duas individualidades só é transponível (e mesmo assim apenas simbolicamente) se uma das individualidades comer a outra, ou vice-versa.
  1. A vida é o que a gente faz para passar o tempo enquanto espera a próxima trepada.
  1. Para o pobre, ônibus lotado já é orgia.
  1. ????? 
  1. O hipercínico não entende por que a longevidade é tomada como índice de qualidade de vida.
  1. Viver pode arruinar a sua saúde.
  1. A vida é uma condição patológica sexualmente transmissível e fatal em 100% dos casos.
  1. Quando está tudo bem, a vida é apenas chata. Mas tragédias sempre podem acontecer.
  1. Nenhuma situação é tão ruim que não possa piorar.
  1. A esperança do hipercínico é que a morte o leve antes que algo de ruim aconteça.
  1. A esperança é a última que morre. A gente morre antes.
  1. A vida social é uma espécie de trabalho não remunerado.
  1. O egoísta é um sujeito que não pensa em mim.
  1. O pior cego é aquele que faz força para enxergar.
  1. O corajoso é um sujeito sem noção de perigo.
  1. A experiência é aquilo que nos permite reconhecer um erro toda vez que o cometemos novamente.
  1. O ‘homo ideologicus’ é uma involução do ‘homo sapiens’.
  1. A direita é o mal ocupando o lugar do mal. A esquerda é o mal ocupando o lugar do bem.
  1. A essência do poder está em se colocar no lugar de concedê-lo, e não na posição de reivindicá-lo ou disputá-lo.
  1. O marxismo é uma doença do intelecto.
  1. O marxismo era o ópio dos intelectuais, que agora preferem o verde.
  1. A política é um espetáculo de má qualidade dirigido ao vulgo, e apenas o vulgo por ela se deixa atrair.
  1. A maior vantagem de ser um político é que o sujeito já não corre mais o risco de morrer antes da hora.
  1. O único poder a que o hipercínico aspira é o da sedução. Mas, para seu azar, não há nada mais sedutor do que poder, fama e dinheiro.
  1. Não é que as pessoas tenham ou construam seu próprio conjunto de opiniões. Elas são, ao contrário, "capturadas" por conjuntos de opiniões autoreplicantes gerados pela linguagem - máquina de produzir discursos que, uma vez criados, saem à procura de uma cabeça onde habitar.
  1. O inferno são os outros. Todos os outros.
38. Acontecem infinitamente mais abortos espontâneos do que provocados. Donde se conclui que a Natureza é o maior abortivo que existe. A quem o Papa deveria culpar por isso?
39. A fé é a capacidade humana de acreditar em algo mesmo na dúvida.
40. O conhecimento é sempre limitado. Já a ignorância é infinita.
41. Não há título acadêmico capaz de impedir que um imbecil o continue sendo.
42. O poliglota é o sujeito capaz de falar a mesma bobagem em várias línguas.
43. Se você se acha um gênio, tem 99% de chance de estar enganado. O 1% restante está na margem de erro.
44. Os hipercínicos acreditam que a melhor maneira de preservar a natureza é deixar tudo se deteriorar a ponto de tornar impossível a vida humana sobre a Terra. O Planeta ficará bem melhor sem nós.
45. Por tipicamente não fazer nada, o hipercínico está moralmente muito acima da média da humanidade, que se dedica ativamente a infernizar a vida uns dos outros.



Putz! ...

-Boa noite caros ouvintes! O nosso entrevistado de hoje (crec! – um barulho no estúdio, o que parece ser um móvel sendo arrastado) errr... é o mais conhecido personagem de safadice do Brasil e quiçá do mundo – onde a flexão da língua permite a rima. Habita a Região da Empulhação e divide um quarto com seu primo Hilário(que reclama para si o epíteto).  

-Bem vindo! Boa noite. O senhor pode sair aí de trás, por favor.

-Desculpe, é impulso. Boa noite. Obrigado!

-Mas o senhor é um sujeito muito simpático. Conte-nos, pois, como tudo começou.

-Papai e mamãe foram acampar. Fui com o papai e voltei com a mamãe. Os dois
estavam...

-Desculpe interromper, mas não é exatamente isso que queremos saber. Queremos saber como o senhor se tornou essa referência no mundo da empulhação e, por que não também(!?), de ativista sexual.

-Ah! Entendi. Comecei com uma prima minha. No começo era atrás do criado-mudo. É que eu tinha o apelido de “Ludo”. Com o tempo fui evoluindo, logo mais passei pra trás da estante, nessa época eu era conhecido – modestamente – como Galante.

-Ouvi dizer que a sua lista é grande. Que o senhor tem um elenco de deixar o Wolf Maia com água na boca.

-Não costumo citar nomes, por questão de ética, mas peguei desde o humilde e desavisado Gari até Phds em empulhação. Deputados, por exemplo. Mas respeito muito os idosos, as Freiras e a irmã do Toscão - um simpático vizinho meu que tem doze títulos de Caratê, seis de Boxe e adora mastigar latinhas de cerveja pra limpar os dentes.

-Mas enfim, os ouvintes querem saber como o senhor mantém esta boa forma e esta predisposição sempre que é requisitado.

-Na verdade eu não frequento academia, mas me alimento regularmente e, sempre que não sou requisitado, procuro descansar. Mas o que realmente ajuda a manter a forma é minha ferramenta de trabalho. Queimo muitas calorias arrastando-o para lá e para cá.

-Nossas linhas estão abertas. Os ouvintes podem fazer perguntas e indagações ao nosso nobre convidado de hoje.

Nisso toca o telefone. O entrevistador tateia a mesa, mas parece que o som vem de outro local.

-Mas que coisa, jurava que o telefone estava aqui. Um momentinho só. Houve um pequeno problema com a linha, mas logo será restabelecida. Nossos comerciais, por favor.

Mas o telefone não pára de tocar e o entrevistador passa a procurá-lo como se fosse um morcego orientando-se pelo som e descobre o aparelho atrás do móvel que havia sido arrastado no início do programa. O telefone segue tocando. Ele finalmente atende:

- Alô! Boa noite! Pois não. Sim, é ele sim que está falando. Quem? Que Mário?

Parou de súbito, colocou o telefone sobre o peito, como quem carrega um cachorro Pinscher e bradou em off:

-Putz!

Após ficar estático, como fosse uma estátua, por uma fração de segundo, procurou abandonar rapidamente a parte detrás do móvel. Mas aí já era tarde demais...  


Mário Olegário